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Interessante, mas com algumas tretas

Nazaré, LISBOA 31-10-2010

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Voyeurismo é assistirmos como se pudéssemos sentir-nos na pele dos verdadeiros protagonistas. E o mal que vejo nesta aventura através dos terríveis meses de 2008 em que a crise financeira se transformou no desastre económico que hoje vivemos, é o voyeurismo. Porque os voyeurs nunca sentem o que presumem poder sentir, e precisamente é o que se tornam argumentistas e realizador, mostrando que não percebem quem é a gente que querem retratar, limitando-se a traçar caricaturas como se duma banda desenhada se tratasse. Qualquer um que ande no mar de tubarões da finança dirá que não é nada daquilo. Pode dizer-se que o apelativo no cinema é o voyeurismo que nos dá, o problema é quando se trata de factos históricos e da pretensão de documentário. Se, pelo contrário, ao menos se ficasse por uma banda desenhada... é claro que Gecko (Michael Douglas) já era uma personagem de história aos quadradinhos, mas aqui metem-no num filme pseudo-realista e destoa. Oliver Stone não faz maus filmes, e se descontarmos o voyeurismo e mais algumas tretas que se acrescentam pelo meio, este filme é estupendo. Josh Brolin arranca mais um magnífico "vilão", Shia LaBeouf e Carey Mulligan dão-nos um par formidável (adorei especalmente a cena nas escadarias no Metropolitan, entre tantas outras provas duma direcção de actores excepcional), o ritmo das cenas, o próprio gozo das imagens e do som, enfim... é de mestre. E há a outra história, a dos 100 milhões de dólares para subsidiar uma pesquisa científica que promete resolver os problemas da energia no mundo. A frase "enquanto o preço do petróleo estiver alto, arranjo-lhe esse dinheiro" pode passar despercebida, mas revela-nos o custo astronómico que as sociedades dependentes do petróleo têm andado a suportar à conta dos bandos de especuladores. E não fica por aí: é um desfilar de estratagemas que o ex-corretor vai depois tentando arranjar, no que afinal não passa dum jogo que, em vez de ser no casino, é com o dinheiro que outros pouparam, mas com o mesmo de viciante e de imoral, mesmo quando se disfarça com uma capa de filantropismo. Esse é um tema muito rico, ainda mais interessante... e nada voyeur.

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