Menu
Comentários

Sombras na escuridão

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 08-04-2021

Denunciar este comentário

Há uma contradição importante entre o Cinema de Tim Burton e a história contada em “Dark shadows”: o realizador quase nunca foi capaz de transmitir qualquer romantismo (de romance, amor e paixão entre dois personagens) nos seus filmes, mesmo quando eles o pedem, e o contado neste filme são essencialmente duas grandes histórias de amor. Basta lembrar-nos de “Dracula” de Coppola, filme cuja narrativa tem muitos pontos de contacto com este (também aqui alguém que perde o seu grande amor, atravessa os séculos para o reencontrar personificado noutra), e percebemos que o lirismo apaixonado, o fôlego quase operático e os estremecimentos emocionais e eroticamente febris das personagens de Vlad e Mirna desse filme não encontram qualquer paralelo neste filme de Burton – não acreditamos na paixão entre Josette/Victoria e Barnabas, e Burton diverte-se demasiado com a relação deste com Angelique para a levarmos a sério.
Mas também é verdade que, como em muitos filmes do realizador, este contorna esta fuga ao romantismo com uma mistura magnífica entre o negrume do seu mundo de fantasia, e o riso transmitido pelo absurdo das situações e das inacreditáveis personagens. Baseado numa série televisiva criada por Dan Curtis e transmitida nos finais dos anos 60, “Dark shadows” é assim um fabuloso divertimento, um prodígio de invenção visual que se aproveita de todo o imaginário criado pelo autor, mas onde já se começava a sentir que essas semelhanças e citações a outros filmes do realizador espelhavam algum cansaço (parece-me ser esta a palavra). Há ideias extraordinárias – o psicadelismo tardio da Collinsport de 72 e o M de McDonalds a significar, para Barnabas, Mefistófeles; há a sexualidade da personagem de Angelique e a raridade do erotismo no cinema de Burton (Angelique a despir as cuecas vermelhas para a deixar sobre a cara de Barnabas na sua prisão de séculos, ou mesmo a forma como filma Carolyn, uma espécie de Lolita burtoniana); o filme é artisticamente extraordinário – a arte de Burton, a fotografia; os cenários e o guarda-roupa; a música de Danny Elfman; há desempenhos extraordinários – Johnny Depp como Barnabas, Eva Green e Michelle Pfeiffer, Jackie Earle Harley, ou a magnífica Chloë Grace Moretz; continua a ser um filme que alimenta de forma notável a nossa imaginação e a nossa capacidade de nos maravilharmos. Poderia ter sido uma visão de Tim Burton duma mistura do citado “Dracula” com, (sei lá?), talvez o “Ai no korîda” do Ôshima (a vertigem do sexo, do amor e da morte) mas não deixa de nos fazer sentir que é mais do mesmo, admirável, mas mais do mesmo.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt"

Escrever comentário:

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA