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Django libertado

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 22-01-2021

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Um ano antes deste filme, tínhamos podido ver em “L`Appollinide (souvenirs de la maison close)” – que era contado na transição de século XIX para o XX – uma cena em que as personagens dançavam ao som de “Nights in white satin” dos The Moody Blues – de 1967 – após a morte de uma companheira. Esta que é uma das mais notáveis “verdadeiras cena falsas” (chamamos-lhe assim, citando alguém) do cinema recente permitiu ao realizador sublimar a ideia de um tempo suspenso, sem dimensão, a que estão sujeitos os personagens por causa da sua brutal profissão. Permite-lhe dar depois aquele cruel salto temporal, pondo a mesma actriz a desempenhar o “mesmo” papel na Paris da actualidade. Serve esta memória para dizer o óbvio: um filme que conta uma narrativa ficcionada não tem que ser rigorosamente verdadeiro historicamente. Quentin Tarantino, então, nunca foi cineasta para se preocupar com “verdades” absolutas – basta lembrar o delírio do filme anterior a este, “Inglourious basterds”, interessa-lhe acima de tudo o efeito. Querendo resgatar ao balde do lixo da história cinematográfica aqueles géneros de cinema popular, de baixíssimo orçamento, que consumia na sua juventude, recriando-os em filmes onde junta o seu imenso saber cinéfilo, com a sua qualidade de realizador, acredita, acima de tudo, no poder que esta arte tem de maravilhar quem se senta numa sala de cinema: que em tudo é possível acreditar desde que o fim justifique os meios (vem isto a propósito do Ku Klux Klan, ou da dinamite, que ainda não existiam em 1858). Em “Django libertado” vai à memória do “western-spaghetti”, que vários realizadores italianos tornaram popular nos anos 60 e 70 do século passado (também eles muito pouco preocupados com as verdades históricas do género que recriavam; o western do cinema clássico americano, já em si uma “construção”; dizia-se na altura: “cavalos aos tiros, e cowboys aos coices…”) e atira-se a um verdadeiro “ninho de vespas”: a consciência, que querem apagada ou limpa, que muitos americanos têm do período da escravatura; Tarantino caricatura, parodia, abusa para tornar ainda mais grotesca (por isso é tão importante o episódio do KKK, o horrível ridicularizado, ou vice-versa) e brutal a terrível normalidade que definia o acto de escravizar na América de meados do século XIX (e o racismo “legalizado” até cem anos depois, mas isso é outra história). Em poucos filmes é mostrada de forma tão perturbante essa aceitação, a banalidade da desumanidade (extraordinária é a personagem de Stephen, num grande desempenho de Samuel L. Jackson, que entre tantas personagens repugnantes consegue ser a mais abjecta – cá está a utilização da dinamite como um grandioso “castigo do Inferno”, quando este personagem pede a Jesus para o ajudar a matar Django) que é a escravidão de seres humanos. Se o filme começa citando os “western-spaghettis”; desde as letras do genérico sobre uma paisagem rochosa, ou da canção; percebemos logo que começamos a ouvir o sinistro arrastar das correntes que prendem os escravos que se arrastam entre dois cavaleiros que a intenção de Tarantino é outra. Quando o grupo encontra o personagem interpretado por Christoph Waltz, o dr. King Schultz, e este se propõe comprar um dos escravos, Django (Jamie Foxx), questão que é resolvida no primeiro dos muitos paroxismos sanguinolentos que Tarantino nos mostra no filme, percebemos logo a seguir que este vai ser um western muito diferente de tudo o que estávamos acostumados. Os dois homens tornam-se amigos, e propõem-se a libertar a mulher de Django escravizada em Candyland, propriedade de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Posto em marcha um plano, “Django libertado” define-se então como um delirante ajustar de contas com a História, que “nem um cão a um osso” Tarantino permite-se a quase tudo para tornar credível a demanda dos personagens numa espécie de vingança redentora de toda uma raça perante a memória. E depois da vingança conseguida no sangue e no fogo, o júbilo: Django faz o cavalo dançar ao luar (o mais inacreditável momento do filme), ele e a amada (Kerry Washington) partem em liberdade e felizes… Cheio de um saber sobre Cinema, “Django libertado” é também um extraordinário momento de criatividade, um filme absolutamente genial e, para mim, um dos mais importantes deste século. Em todos os aspectos, um prodígio de invenção.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

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