Menu
Comentários

Animais nocturnos

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 08-04-2021

Denunciar este comentário

O filme começa com uma encenação onde corpos femininos nus, deformados pela obesidade, dançam grotescamente; percebemos depois que é parte de uma exposição numa galeria de arte de Los Angeles, é a noite de inauguração e Susan, uma das responsáveis da galeria, sente-se abstraída em relação ao sentido de tudo aquilo. Este inicio introduz-nos num dos três tempos narrativos que Tom Ford conta neste “Animais nocturnos”:
O presente – Susan é infeliz, parece que perdeu o interesse pelo que faz, o casamento esgotou-se, os negócios do marido estão à beira da falência, pouca coisa parece ter algum sentido. Nessa noite quando regressa a casa, recebe uma encomenda do primeiro marido que ela deixou quase há duas décadas, uma cópia do seu primeiro romance que enfim escreveu e lho dedicou. Como o marido vai em negócios para Nova Iorque (saberemos mais tarde que é para estar com outra mulher) fica sózinha em casa e começa a ler o livro…
O que se ficciona no livro – um casal e a sua filha adolescente são atacados durante uma viagem no interior do Texas; ele é abandonado num lugar ermo, elas são violentadas, violadas e assassinadas; com a ajuda de um detective da polícia local vai conseguir punir os criminosos; mas acaba por morrer também…
As memórias de Susan – ao mesmo tempo que vai lendo o romance, ela vai recordando momentos da sua vida com o primeiro marido: o encontro em Nova Iorque; o final da relação; quando percebe que ele a seguiu quando abortou do filho que seria deles …
Quando numa das memórias de Susan ouvimos Edward (o ex-marido) responder-lhe que todos os autores escrevem sobre eles próprios, começamos a perceber que o que Tom Ford conta neste filme (o notável argumento é dele, adaptando uma novela de Austin Wright) é uma história de fantasmas. O romance será uma tentativa de ele, o ex-marido, exorcizar o seu amor, o seu passado com ela; há, no entanto, momentos consecutivos em que cenas do livro são encenadas da mesma forma que momentos do presente onde Ford parece mais querer sublinhar o poder da palavra escrita, é muito belo o momento em que depois de Susan acariciar o seu nome no inicio do livro, o filme começa logo a narrar a ficção contada no livro. Mas temos que ver a morte dos personagens do livro (pai, mãe e filha) como uma vingança do autor para com aquela mulher, um lavar de alma, um fim, uma representação, que a solidão de Susan no final parece definir.
Depois de um filme também muito bom, “Um homem singular” em 2009, Tom Ford realiza um filme admirável, um filme que nos perturba porque nos questiona, e nos projecta para uma sala de espelhos onde a imagem reflectida é muitas vezes perversa.
Haverá uma exagerada estilização narrativa e formal como é contado, mas os estremecimentos emocionais que provoca são suficientemente fortes para a esquecermos.
Magníficos são os actores: Amy Adams é uma Susan tão delicada, tão diáfana, que é absolutamente comovente; Jake Gyllenhaal é os dois maridos, personagens difíceis de ler, emocionáveis, mas que perecem não ter emoções; e Michael Shannon e Laura Linney, sublimes na textura com que expressam a sua representação.
Um filme inteligente, um dos melhores filmes de 2016.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Escrever comentário:

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA