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Pais e filhos

Marcelo Alves, Lisboa 08-12-2018

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Talvez por vir de uma carreira mais sólida em filmes de comédia e até por preconceito com o gênero, poucas vezes percebemos o quão bom ator é Steve Carell. Suas escolhas recentes, porém, só servem para reforçar o talento do “Virgem de 40 anos” (2005) também como ator dramático. “Foxcatcher: uma história que chocou o mundo” (2014) e principalmente “A grande aposta” (2015) já exibiam a sua versatilidade. E quando ele mergulhou em dramas como “A melhor escolha” (2017) e o mais recente "Beautiful Boy" (2018), Carell justificou ainda mais as escolhas feitas por diferentes diretores pelo seu trabalho.

Há algumas semelhanças entre estes dois filmes mais recentes. “A melhor escolha” é a história de um pai que perde o filho na guerra do Iraque e só quer enterrá-lo enquanto vive o seu luto ao lado dos amigos companheiros da guerra do Vietnã. "Beautiful Boy" é a história de um pai, uma família, mas muito centrada neste pai, que lida com o vício de drogas do seu filho mais velho. Em ambos o trabalho Carell é preciso, tocante e com a segurança de veteranos experientes atores dramáticos.

O seu David Sheff é um dos pontos fortes de "Beautiful Boy". O outro é o trabalho do seu colega de cena Timotheé Chalamet. Com apenas 23 anos, o ator vem se consolidando como um forte nome no cinema com atuações cada vez melhores. Chalamet já havia chamado a atenção no drama “Me chame pelo seu nome” (2017), quando fazia o jovem Elio, que se apaixonava por um escritor americano, seu primeiro amor. Em "Beautiful Boy", ele traz a carga dramática necessária à história de Nic e não cai no exagero dos devaneios de loucura pelo uso de drogas tão frequentes em filmes que reportam esse tipo de problema.

A dor de Nic é absurdamente palpável. O seu desespero por sair dela também. A depressão entremeada por momentos de falsa alegria, pois sabia-se o quanto Nic sofria por dentro, estão vivas nos olhos de Chalamet.

"Beautiful Boy" é um filme duro de ver. Uma história real sobre uma família que tinha tudo para ser perfeita e é dragada pelo problema das drogas. Em especial o uso de metanfetamina. Mas ao mesmo tempo é de uma beleza ímpar, ou talvez difícil de descrever por mostrar essa força da relação entre pai e filho. Uma força quase inquebrantável até mesmo quando David vê a necessidade de sair de cena para se recompor. E quão belo é o trabalho de Carell ao carregar todas essas nuances consigo.

E neste ponto é preciso falar de outra questão fundamental na construção desta história: a edição do filme de Felix van Groeningen, o mesmo diretor de “Alabama Monroe” (2012). A ideia de construir uma história fragmentária com pedaços do passado e do presente misturando-se era arriscada, poderia causar confusão, mas ficou muito bem feita. Nela, íamos entendendo aos poucos aquela relação de amor entre pai e filho, a forma como Nic mergulhou nas drogas, se afastou do pai, os erros de cada um, as suas idas e vindas, o fundo do poço... Uma estrutura não linear que trouxe ao filme momentos de pura poesia.

"Beautiful Boy" fala de um tema muito sério, a dependência química, mas sem cair em falsos moralismos. Por outro lado, é também um filme sobre a força do amor. O amor de um pai pelo filho, de uma família toda por esse filho e sobre não desistir jamais. Mesmo quando tudo parece perdido. E ainda tem uma excelente trilha sonora.

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