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Uma família de pequenos ladrões

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 05-02-2020

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Os filmes de Hirokazu Koreeda não contam histórias, são filmes que se deixam habitar pelas histórias, pelos seus personagens, as suas rotinas e os seus rituais. É um olhar com algum de pudor, sem qualquer juízo, um olhar quase documental sobre os acontecimentos na vida das suas personagens, os estremecimentos que ocorrem. Há uma quase ausência de movimento, mesmo quando na aparente normalidade, começam a surgir momentos e indícios de estranheza. São grupos fechados, que apenas a crescente desagregação faz “abrir” para o exterior.

Neste olhar (recorrente em todos os filmes, vem com facilidade à memória “Ninguém sabe”, o primeiro filme de Koreeda estreado em Portugal) que sendo frio formalmente consegue ser também bastante terno, está um olhar terrível sobre a desumanidade que define as sociedades modernas (sendo anterior, “Uma família de pequenos ladrões” terá alguma coisa a ver com “Parasitas” de Bong Joon-ho). Mais extraordinário ainda é que este olhar de Koreeda é nos dado a partir das crianças e do seu posicionamento perante as escolhas dos adultos.

Em “Uma família de pequenos ladrões” ninguém é o que parece ser – a avó, o pai e a mãe, uma adolescente, e um rapaz ainda criança, e também uma menina que eles “adoptam” quando percebem que é mal-tratada pelos pais). Vivem numa casa miserável, são sustentados pela pensão da avó; pelos ordenados em empregos que pagam mal (ele trabalha nas obras, ela passa a ferro), e que acabam por perder; a adolescente trabalha numa casa de striptease “soft”. A estranheza entranha-se: ensinaram ao filho (e depois à menina), os truques para executar “pequenos” roubos em lojas. Mas o filme não julga, documenta – o que nos mostra é uma família que é feliz, e que sabe funcionar dentro das suas rotinas, que é generosa, e que aceita os defeitos de uns e de outros. E enquanto a verdade nos vai sendo revelada a pergunta que fica é o que é que realmente uma família, são os laços de sangue ou algo que se constrói. Quando no fim o olhar do realizador abandona o olhar de cada um dos miúdos, percebemos que a tragédia não está na verdade terrível por detrás da “construção” daquela família, está na sua desagregação, no desmontar da mentira.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

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