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José Miguel Costa, Lisboa 07-01-2019

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A esquizofrenia do controverso realizador Lars Von Trier, felizmente para nós, manifesta-se sob a forma de arte (invariavelmente crua, brutal e visceral - amada ou odiada com igual intensidade, por ambos os lados da barricada), e o seu novo "surto psicótico" (The House That Jack Built) está aí para comprová-lo.

A narrativa sinistra/sombria e (explicitamente) violenta que é, em simultâneo, trespassada por um delicioso humor ultra-sádico e grotesco, tem sob pano de fundo todo um (algo forçado) enquadramento filosófico (quase roçando o exagero, tal é a saturação de citações de filósofos e artistas clássicos, com o objectivo único de reforçar as suas "premissas teóricas base" de que homicídio é uma forma de arte e que os artistas apenas o transfiguram nas suas obras, das mais diversas formas e/ou metaforicamente, exclusivamente para expiar a sua falta de coragem para concretizar o acto libertador de matar outrém).

Divide-se em cinco actos, que relatam episódios aleatórios de assassinatos, ocorridos na década de 1970, que servem o propósito de "definir" a personalidade e o modus operandi do protagonista (que os narra/comenta pessoalmente em voz off enquanto efectua sua última caminhada rumo ao inferno - literalmente), um descuidado e pouco metódico serial killer (encarnado por um genial Matt Dillon frio, magnético e desconcertantemente engraçado).
Esta personagem central (que Lars Von Trier utiliza como uma espécie de alter ego) é um assentimental e amoral engenheiro solitário que manifesta um transtorno obsessivo-compulsivo relacionado com as limpezas e carrega sobre os ombros a frustração de, apesar da sua qualificação, não possuir a mestria suficiente para sequer construir a sua própria casa. Vicissitudes essas que apenas consegue sublimar (menorizando temporariamente as suas angústias) quando mata - por norma, mulheres - e transforma as suas vítimas em arte post mortem, que imortaliza através dos seus registos fotográficos. E quiçá, desse modo, tente alcançar o ambicionado reconhecimento artístico (motivo pelo qual, inconscientemente, tudo faz para ser apanhado pelas autoridades policiais - tarefa que se revela, todavia, inatingível no imediato, tal é o seu "azar").

Portanto, o dinamarquês terrible continua a tentar "estontear-nos", tanto com os seus conteúdos "politicamente nada correctos" (e, inclusive, a "bater - provocatoriamente - na mesma tecla" que levou a que fosse considerado persona non grata em Cannes) como pelo frenezim da câmara de filmar (quase sempre à mão). E ainda bem! ... Moral da história? Não lhe dêem os comprimidos!

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