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Tu é que és o Boss!

Pedro Brás Marques, Vila Nova de Gaia, Portugal 10-09-2019

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Não deixa de ser curioso que, na mesma altura em que D. José Tolentino de Mendonça se torna cardeal, estreie nos cinemas lusos “Blinded by the Light”. Porque a “luz” que inundou Javed, o protagonista muçulmano do segundo, foi a mesma que há muito também iluminou a do primeiro, tendo chegado ao ponto de escrever, no Expresso, uma crónica intitulada “A Teologia de Bruce Springsteen”… Mas, afinal, qual é o dom do filho dilecto de New Jersey para conseguir esta universalidade? Onde é que está essa tão falada “espiritualidade” que parece poder encontrar-se nas extraordinárias letras das suas canções?
Javed é um adolescente a viver na cidade industrial de Luton, em 1987, altura de profunda crise no Reino Unido, com níveis de desemprego nunca vistos. A família vive com algumas dificuldades e tudo piora quando o pai é despedido. Mas o protagonista tem outros problemas: contra a vontade do pai, quer ser escritor mas ninguém liga ao que escreve, não tem namorada e, tal como a sua comunidade, é alvo de actos e palavras racistas e xenófobas. Quem acaba por o salvar é um amigo que lhe recomenda que escute dois álbuns de Bruce Springsteen. E nas canções do Boss, Jared vai encontrar sentido para a sua vida. Vai perceber o que é uma relação real com uma mulher. Vai encontrar as palavras para o desespero de quem está desempregado e tem uma família para sustentar. Vai perceber que o seu desajuste social já foi percebido e entendido por alguém e esse alguém é… Bruce Springsteen.
O título em português é “O Poder da Música”, o que é enganador. Já o disse muitas vezes: para perceber, em todos os seus matizes, a obra do autor dessa obra-prima que dá pelo nome de “Nebraska”, mais do que ouvir, é preciso lê-lo. E foi isso que Javed fez. E isso deslumbrou-o e deixou-o “cego pela luz”. Não passou de Saulo a Paulo, mas toda a sua mundividência se alterou. Porque Springsteen dá voz ao ‘losers’, aos falhados, a todos aqueles para quem a vida não sorriu e o tal “american dream”, a “promised land” foi antes um “nightmare”. Mas, com isso, o que o Boss realmente procurava ilustrar era outra coisa. Uma leitura mais aprofundada revela que Bruce Springsteen tem realmente um tema central: a família, seja na forma como o ‘bonus pater familia’ luta desesperadamente para a manter e sustentar, ou os conflitos entre os seus membros sejam eles pais, filhos ou irmãos e, claro, a presença do mal como elemento perturbador daquilo que deveria ser o zénite da perfeição. Mas a verdade é que mesmo com todos estes problemas, sejam eles materiais ou do foro pessoal, o ser humano consegue resistir e não perder a esperança”. E foi isso que Javed percebeu: tal como o Boss, até pela mesma relação conflituosa com o pai, também ele entendeu que tudo o que tinha “aprendido” com as letras das canções, sobre homens e mulheres desencantados, possuía um significado muito mais profundo: a família, a aceitação e a reconciliação.
O filme da britânica, de ascendência indiana, Gurinder Chadha retrata bem o “caminho de Damasco” e a “cegueira pela luz” de Javed. Enquadrando a história naquele realismo social britânico que tão bons filmes produziu nas décadas de 80 e 90, alguns com fortes incidências musicais (“Brassed Off” ou “The Commitements”, p. exp.) Chandha conseguiu ilustrar na perfeição a influência da música na personalidade de Javed. A realizadora já havia alcançado alguma fama no início do século com uma história de contornos algo semelhantes: “Bend it like Beckam”, em que uma “desenquadrada” rapariga hindi procurava, contra a família, jogar futebol, à semelhança do seu ídolo, o lendário nº7 do Manchester United… A realizadora mostra uma realização competente para levar esta curiosa história até ao seu epílogo redentor, num caminho pleno de risos e lágrimas. As interpretações são as adequadas, mas seria injusto não reservar um aplauso para Viveik Kalra e para Kulvinder Ghir, que interpretam o pai e o filho. Enfim, um “feel good movie” que, além de entreter, tem a virtude de mostrar a enorme riqueza das letras das canções de Springsteen, em especial a uma geração como a actual cujos gostos musicais parecem dar sentido a uma piada do filme: “no futuro, só haverá sintetizadores…”

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