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Dor e glória

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 19-09-2019

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Chegará uma altura da vida em que todos nós nos questionamos sobre o que, e quem somos, sobre as escolhas que fizemos no passado, e o que seria diferente se tivéssemos feito outras. E muitos conseguirão acertar as contas com esse passado porque o que já foi… já foi. “Dor e glória” será um desses momentos na vida de Pedro Almodóvar.
Salvador Mallo é um homem “paralisado” tanto por dores físicas como emocionais. Foi um realizador importante em Espanha, e a exibição programada pela Cinemateca de um seu êxito com trinta anos fá-lo ir ao encontro do seu passado. Não sei o quanto de biográfico terá a história, e o quanto é uma construção ficcional a partir das memórias de Almodóvar, até porque o realizador decide “disfarçar” a realidade social dos tempos contados no filme: não se fala de Franco e do fascismo, mas a dureza desses tempos está lá no olhar de Salvador na sua infância; não nos mostra os anos da Movida madrilena, mas está lá na peça de teatro encenada a partir das memórias de Salvador sobre o amor da sua vida. O reencontro e a reconciliação com o actor que representou nesse filme leva-o ao consumo de heroína, que lhe mitiga as dores mas que fixa ao passado – a mãe protectora (Penélope Cruz) e o pai ausente, o colégio religioso, o primeiro olhar para um homem nu, as actrizes trágicas (a Natalie Wood de “Esplendor na relva”, a Marilyn de “Niagara”) que o fizeram sonhar. E se o reencontro com Federico, o seu grande amor, é um belíssimo momento de Cinema, a mostra que é no melodrama que Almodóvar se torna um espantoso realizador; é quando a sua assistente e a única amiga que tem, Mercedes (Nora Navas) lhe mostra um convite para uma exposição onde está desenhado um dos seus momentos definitivos do passado, que Salvador acerta as contas com a sua história: César era um rapaz que ele ensinou a ler, e que ajudava nas obras e pinturas na casa onde habitavam, tinha jeito para o desenho e pintou Salvador sentado a ler, é o esse o desenho do convite para a exposição. Nele, por trás, está uma carta a ele dirigida escrita por César; quando diz a Mercedes que não o irá procurar, Salvador escolhe olhar para o futuro e viver o presente.
O que é muito bonito em “Dor e glória” é que neste vai-e-vêm entre o passado e o presente, neste espelhar entre as memórias e a ficção, o filme flui por uma espécie de meio-termo que o coloca de fora deste confronto (e, por isto, todos os elogios são poucos para a representação de Antonio Banderas, que estica a sua imagem para os dois lados, e que nesta acção torna o que é real (Pedro) em ficção (Salvador)). Fica assim uma narrativa, também formal, classicista até ao osso, que é só isso mesmo: a história de Salvador e dos seus fantasmas, que pode ou não ser tangente à história de Pedro, e isto não importa nada; porque acima de tudo é muito bom Cinema.
Gosto mais de “Julieta” (o seu filme anterior, também ele contado entre o passado e o presente), mas este também é um filme muito belo.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

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