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Desilusão

Carlos Mourão Ferreira, Lisboa 09-12-2019

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Os Ferraris P3 e P4 que aparecem no início do filme, na oficina da marca quando os executivos da Ford visitam as instalações em Itália (por alturas de 1964), só surgiriam dois anos depois. Quando muito, poderíamos ver um P2, e fase de gestação.

No grande hangar/oficina da Ford, vê-se a dada altura um magnífico Cobra Daytona com jantes cromadas, daquelas que se veem nos programas da Tv cabo onde uns sujeitos de lenço na cabeça “customizam” clássicos americanos.
Em 1965 ou 66 esse carro nunca teria esse aspecto. Não esperava ver um desses carros verdadeiros no filme, um dos poucos exemplares existentes pode valer por si só um terço do orçamento da película...

E quanto a questões técnicas não vale a pena desenvolver mais, isto é um filme para o grande público, não um documentário.

E é precisamente como fílme, que falha redondamente.

Os personagens são essencialmente caricaturas. Não faço ideia de como seria o temperamento dum Ken Miles, que no filme aparece como um sujeito meio tresloucado que afugenta os clientes da sua oficina, berra durante metade do tempo que conduz nas corridas, e mete mudanças com a força dum Rambo a rachar cabeças de soldados russos no Afeganistão.

Um amigo que foi comigo ver o filme observou que o personagem de Henry Ford II é como um bebé gordo gigante, um tiranete no seu império de oficinas e linhas de montagem. O Commendatore Enzo Ferrari não tinha bons fígados, mas também não era uma espécie de semi-mafioso tal como o filme o retrata, que se sente insultado com uma proposta de milhões, e que desata a chamar filhos desta e daquela aos executivos americanos que o visitam.

Os argumentistas do filme não deram a Matt Damon espaço e matéria para recriar um personagem tão rico como foi Carroll Shelby. O personagem acaba por ser quase vazio, e além disso seria mais adequado a alguns dos sólidos actores secundários que Hollywood nos tem dado o longo dos anos, um Lee Ermey, ou um Sam Elliot, com os respectivos sotaques texanos e chapéus de cowboy.

Num pequeno papel quase figurativo, lembraram-se de recriar o piloto italiano Lorenzo Bandini, com um actor que mais parece o chefe de um gang de indianos acabado de chegar de Bollywood.

E na cenas de corridas a coisa não melhora. Por várias vezes o Ken mete uma mudança, e o carro como que dispara para a frente, deixando os competidores mais próximos como se estivessem parados. Isto pode acontecer quando o Justiceiro David Hasselhoff aciona o turbo-boost do seu Kit-carro-falante, mas na realidade da competição nunca será assim.

Por outro lado, acho difícil que a concentração exigida pela condução a 200 ou 300 km/hora daqueles carros deixe espaço para fazerem caras de maus uns para os outros quando estão lado a lado. Isso é coisa de filmes pastilha-elástica tipo “Dias de Tempestade” com o Tom Cruise, ou dos filmes dos anos 50 em que o Elvis Presley aparecia a conduzir carros de corrida.

Mas a cereja no topo do bolo é a forma como a equipa desportiva da Ferrari é retratada. Esta equipa dominou mais de metade da década de sessenta no que toca a estas competições (sport-protótipos), e, apesar de não ter ganho em Le Mans no ano seguinte de 1967, foi campeã nesse ano no somatório de todas as outras provas do campeonato. No filme são retratados como um bando de baratas tontas.

Os ingleses têm fama de terem a mania que são superiores, mas os americanos quando tratam de retratar outros povos, também não lhes ficam atrás... nem imagino o que fariam se tivessem que retratar portugueses.

Na minha opinião, este filme fica claramente atrás do filme “Rush” de 2013, onde o argumento trata muito melhor os personagens, onde a acção é mais verídica, com os efeitos digitais bem incorporados no filme. E com uma preparação dos actores que levou o Daniel Bruhl a entrevistar o próprio Niki Lauda, para tornar o personagem mais convincente.

Portanto, mais uma americanada para esquecer.

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