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Fake News, 1996

Pedro Brás Marques, Vila Nova de Gaia, Portugal 19-02-2020

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A ânsia dos media pela última novidade e o impacto dessa voracidade na vida do cidadão comum tornam “O Caso de Richard Jewell” um exemplo contemporâneo de violação dos princípios básicos e fundamentais da dignidade humana.

A história, verídica, é simples de contar. Decorriam os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, quando um segurança em serviço no parque olímpico encontra uma bomba. Alerta as autoridades, que prontamente evacuam o recinto, assim se evitando a morte de dezenas de pessoas. Logo endeusado pela sua atitude, Jewell acaba por ver anunciado na comunicação social o facto da polícia estar a analisar a possibilidade de ter sido ele a colocar a bomba. Num estalar de dedos, o herói torna-se vilão e a sua vida é escalpelizada, sem qualquer condescendência, até se concluir que, afinal, ele nada tinha a ver com a autoria do crime.

Tudo isto de passou há vinte e cinco anos, num período onde as redes sociais ainda não existiam, mas nada disso impediu que este sucedâneo de “fake news” se espalhasse aos sete ventos e traumatizasse não só Richard Jewell como a sua família e amigos. A violência da investida dos media foi tremenda, atropelando todos os direitos à sua passagem, deixando a vida do pobre segurança em ruínas. Haveria de os fazer pagar em tribunal, mas o dano já estava feito.

No seu tom seco, Eastwood narra a história de Jewell com a sua habitual economia narrativa e sem qualquer necessidade de estar a dar lições de moral ao espectador, antes confiando na inteligência deste para discernir entre o fútil e o relevante, entre a virtude e o defeito, entre o bem e o mal do que aconteceu, perto da meia-noite, neste outro jardim da Geórgia.
Seria injusto não guardar uma nota final para a interpretação de Kathy Bates no papel de mãe de Jewell e para a de Sam Rockwell no do seu advogado. A actriz galardoada por “Misery” tem aqui uma composição soberba, oscilando entre a felicidade inicial e a derrocada posterior. Pungente o seu registo, ao lado do advogado, perante as câmaras a exigir respeito e a clamar pelo seu filho. Não será um Eastwood ‘vintage’, mas é bem melhor do que muito do que por aí vai infectando as salas de cinema…

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