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J`accuse

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 19-02-2020

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Para além de todas as polémicas, este “J`accuse” parece-me ser um filme relativamente menor na obra de Polanski. Se é contado nas ambiências quase kafkianas que definem muitos filmes do realizador, personagens emparedadas por circunstâncias que não controlam, o chão a fugir-lhes debaixo dos pés em caminhos e becos que parecem não ter saída; neste filme o realizador acrescenta-lhe a ideia da injustiça: um homem acusado de traição, enredado em teias de interesses que não controla e, por isso, é desterrado para uma prisão no “fim do mundo”; outro homem, que ao descobrir provas de que as provas contra o primeiro foram fabricadas, vai lutar para desenlear a teia construída em volta do bem parecer da instituição militar francesa do final do século XIX.

Este caso aconteceu mesmo. Durante a “guerra fria” que se vivia no final do século XIX entre as potências europeias (desembocaria depois na Primeira Grande Guerra), os serviços de informação franceses descobrem que há um espião no exercito francês. Na necessidade de descobrir rapidamente um culpado, a acusação cai sobre Alfred Deryfus, um oficial judeu (o racismo contra os judeus era uma coisa entranhada na sociedade europeia de então), e as provas “indiscutíveis” fazem-no culpado sem qualquer dÚvida. O homem é enviado para a a ilha do Diabo. O seu professor, o coronel Georges Picquart, é entretanto nomeado para a chefia dos serviços de contra-espionagem, e irá descobrir evidências de que o espião poderá ser outro e que Dreyfus é inocente. Iniciará então uma luta contra o sistema para provar a inocência do seu antigo aluno, num processo que lhe trará consequências pessoais; mas que, finalmente correrá bem para os dois.

O caso é célebre, envolveu gente conhecida da altura (o titulo aproveita o da carta publica que Émile Zola escreveu ao presidente francês a denunciar a injustiça), e alterou radicalmente a percepção que os franceses tinham na Justiça francesa; e este é o primeiro filme em que Polanski aborda um acontecimento histórico, e será esta escolha que rouba ao filme o peso quase sempre trágico e cruel que Polanski dá aos seus filmes. É verdade que o realizador mostra algo da vida privada de Picquart (o seu relacionamento amoroso com a amante, Pauline Monnier, e até lhe dá um movimento de rebeldia quando ela escolhe, já divorciada, continuarem como amantes e responder não ao pedido de casamento de Picquart); é verdade que Polanski não pinta propriamente de herói o coronel Picquart (o homem diz que não gosta de judeus, e partilha dos valores absolutos do exercito que serve), mas o filme é demasiado factual, a história não nos indigna, falta-lhe, lá está, a crueldade e aquele mal-estar que têm definido quase todos os filmes de Polanski. Admiramos a inteligência formal de Polanski, discreta, é certo, inteligente como recusa empatias com os personagens, definitiva como os coloca no “seu lugar” no xadrez social da época, mas esta falta impede o filme de dar o salto. O racionalismo de Polanski resulta num filme demasiado árido. Imobiliza o filme.
Apenas interessante.
(em “oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt”)

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