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007: Sem tempo para morrer

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 18-11-2021

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Até “Casino Royale” nunca gostei dos filmes de 007: aquela irritante e pedante ligeireza do personagem principal, confrontando situações e inimigos normalmente a raiarem o ridículo e rodeado de personagens femininas cuja superficialidade era quase ofensiva tornava aquilo tudo desinteressante, tudo a cair para o lado da caricatura, tudo muito esquemático, tudo irrisório. No entanto, James Bond tornou-se um personagem imprescindível no imaginário cinematográfico dos últimos sessenta anos.
Quando em 2006 os produtores contrataram um novo actor, Daniel Craig, decidiram fazer regressar a história do personagem às suas origens, e ao mesmo tempo mudar a ambiência das histórias e o carácter do personagem: com um grande argumento de N. Purvis, R. Wade e P. Haggis, “Casino Royale” era um prodigioso filme de acção onde James Bond era agora um verdadeiro militar com ordem para matar, um homem duro num mundo corrompido e sujo pelo poder (todo ele), um assassino às ordens de sua majestade, a rainha de Inglaterra, um agente secreto que ultrapassa os seus adversários, normalmente com a morte destes. E James apaixonava-se pela sua colega de missão, Vesper Lind, uma história de amor, daqueles amores que se vivem no limite, e as consequências do trágico desfecho desta relação contaminaram todos os quatro filmes seguintes. Estes cinco filmes com Daniel Craig são também notáveis demonstrações da ideia de que quando dois seres se amam há uma perda da identidade de ambos. Era esta intensa alteração que o amor, e depois a perda da pessoa amada, provocava em Bond que transformava o primeiro filme num intensíssimo drama romântico. E esta vacilação sentiu-se nos filmes seguintes.
No terceiro e quarto filmes, Bond confrontou o seu passado, envelhecia e nós notávamos os sinais do envelhecimento, e no final de “Spectre” voltou a apaixonar-se, por Madeleine (Léa Seydoux), e abandonava o MI6. Escolhia o amor.
A sombra da morte sempre pairou sobre estes cinco filmes, a sua inevitabilidade. “Sem tempo para morrer” começa com James e Madeleine apaixonados em Matera, Itália, mas a morte está ao “virar a esquina”, é naquela cidade que Vesper está sepultada. O passado vem atrás de James e Madeleine, pressentimos a pior.
Todo o filme desliza vertiginosamente para a tragédia, o argumento vai desvendando segredos; James, entretanto substituido por Nomi (Lashana Lynch) como agente 007 (“é só um número”), vai confrontar mais um daqueles homens, Lyustsifer Safin (Rami Malek), que querem mudar o mundo através da destruição deste, o conflito entre eles resolve-se de forma rápida e brutal. Mas James percebe que conviver tantas vezes com a morte, torna-o intimo dela. E ela é a morte.
James, foi um gosto conhecê-lo.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

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