Menu
Comentários

Da Gália

Pedro Brás Marques, Vila Nova de Gaia, Portugal 07-02-2022

Denunciar este comentário

Charles de Gaulle merecia mais, muito mais do que o que emana deste filme que nem chega a ser biográfico, mas antes hagiográfico, mostrando um homem, um marido, um pai de família e um militar pleno de virtudes e alheio a quaisquer defeitos.

“De Gaulle” também não chega a ser um ‘biopic’ porque se centra, essencialmente, em 1940, naquele momento terrível em que os alemães avançavam sobre a França e os velhos generais optavam preguiçosamente pela capitulação em vez de oferecerem luta e resistência. De Gaulle tinha sido o único a conseguir suster a onda das tropas nazis e, claro, fora promovido militar e politicamente, mas a sua visão de resistência face ao inimigo acaba rejeitada. Vai então para Londres, onde conta com a ajuda de Churchill e organiza a "França Livre". É de lá, dos microfones da BBC, que se dirigirá ao seu país, no discurso que passará à História como “O Apelo de 18 de Junho”. Além desta vertente, o filme preocupa-se em mostrar De Gaulle em família, sempre através de flashbacks, nem sempre por ordem cronológica. O seu amor pela mulher e o carinho pelos filhos são manifestos, em especial com a pequena Anne, portadora de trissomia 21.

“Quando os factos passam a lenda, imprime-se a lenda”, aprendemos com John Ford em “O Homem que matou Liberty Vallence”. Gabriel Le Bomin, realizador e co-argumentista, levou aquela máxima à letra e construiu uma visão do General como se dum homem perfeito se tratasse. Sim, De Gaulle era profundamente católico e conservador, mas isso jamais foi sinónimo de santidade, como muito bem sabemos. Daí que esta construção dum militar que nunca se engana, dum marido devotado à mulher e dum pai irrepreensível, se torne inverosímil. Até Spielberg, quando assinou “Lincoln”, outra figura icónica no seu respectivo país, não teve problema algum em mostrar os seus defeitos, incluindo jogadas políticas sujas. Aqui não há nada disso, há uma genuflexão, quase um endeusamento da que será, porventura, a figura maior da França no século XX. Aliás, Le Bomin até vai buscar inspiração visual a Ridley Scott e a “Gladiador”, quando coloca De Gaulle a caminhar num campo de trigo passando suavemente a sua pensativa mão sobre as espigas…

O filme, em si, nem é mau, antes escolástico e previsível. Por outras palavras, é como o retratado: conservador. A própria composição de Lambert Wilson, um belíssimo actor, brilhantemente subtil em filmes como “Rendez Vous” e “Dos Homens e dos Deuses”, escorrega aqui para uma postura cabotina e “rígida”, como que para se adaptar à visão maior de Le Bomin.

Para uma figura grande, em todos os sentidos, como Charles de Gaulle, é estranho não haver mais abordagens biográficas, nomeadamente no domínio do cinema. Veja-se, por exemplo, a quantidade de aparições de obras sobre Churchill. Mas este “De Gaulle” não veio colmatar essa lacuna, antes alertar que o “grande espargo” merece ser recordado numa obra que se possa dizer que está…à sua altura.

Escrever comentário:

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA