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Castelos de Areia

Pedro Bras Marques, Vila do Conde 10-10-2021

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Uma praia. Treze personagens. Inexplicavelmente, no espaço de horas, os velhos morrem, os adultos envelhecem e as crianças amadurecem. A existência humana reduzida de décadas a pouco mais de um dia…
M. Night Shyamalan, o realizador e argumentista que adora histórias onde o estranho e o sobrenatural são regra, capaz do melhor (“O Sexto Sentido”, “A Senhora da Água”) e do pior (“After Earth”, “O Último Airbender”) voltou-se para um livro de banda desenhada e adaptou-o ao cinema, em "Old". Trata-se de “Château de Sable” desenhado por Freederik Peeters e escrito por Pierre Oscar Levy, um livro de 2010 que passou despercebido fora do mundo da BD francófona. Infelizmente, o realizador não teve a coragem necessária para fechar a história da forma lógica, consequencial e natural que ela merecia, como aconteceu no livro, antes optando por um desenlace redondo e “justo”. O castelo de areia do título é muito mais simbólico que o desengraçado “old”, mas, claro, é preciso ler a história para o perceber… A simbólica também é forte em ambas as versões, como serem 13 personagens; tudo se passar na praia, um local que nem é terra nem é mar; e, no caso do livro, a opção pelo preto e branco, dualiza ainda mais a dimensão existencial da história.
A questão dos efeitos da passagem do tempo, em velocidades diferentes, para diversas personagens, é um clássico da ficção científica muito centrado na Teoria da Relatividade de Albert Einstein, ao estabelecer que o decurso do tempo não será uniforme no Universo, mas antes relativo, dependendo das condições físicas do sujeito e do espaço-tempo à sua volta. Uma das melhores materializações do conceito aconteceu em “Interstellar”, em que um astronauta fica na nave enquanto outros dois desceram a um planeta próximo, onde cada hora equivalia a sete anos em tempo da Terra. Pouco mais de três horas depois, regressam à nave, para encontrarem o companheiro… vinte e três anos mais velho. Em “Old” algo de semelhante acontece, porque o fluxo de tempo só está acelerado naquela praia, da qual é impossível fugir, face a uma força invisível que impede qualquer contacto. Quem está fora da zona de influência, nada lhe acontece. Outra referência que parece incontornável é a de “O Anjo Exterminador”, de Luis Buñuel, onde se conta a história de várias pessoas que se reúnem para jantar mas, no final, nenhuma delas consegue inexplicavelmente dali sair durante dias, apesar de todas as portas estarem abertas e a passagem completamente desimpedida…
Claro que a proposta narrativa é a de nos questionar sobre o tempo e aquilo que dele fazemos, como dizia a Swatch há uns anos. Ao contrário do que intuímos, a verdade é que não temos qualquer "direito adquirido" a viver muito ou pouco tempo. A Natureza é soberana e tanto podemos estar vivos 1 dia, como 100 anos. Mas e se o tempo correr de forma diferente para vários indivíduos? Ou seja, a normal expectativa de vida de oitenta anos baixar para um dia? E se, inversamente, se entender para 200 anos? Como é que articularmos a nossa graça/maldição com quem nos rodeia? Porque tudo acontece de forma impiedosa, imparável e neutra, tal como a Natureza sempre actua. Não há culpados, não há escape, não há salvação. É assim e ponto final. É esta problemática que torna interessante o filme e, principalmente, o livro.
Na melhor tradição de Hitchcock, do poder da sugestão sobre o da exposição, Shyamalan não mostra tudo, focando-se muito – e bem – nas reacções faciais perante o rápido evoluir dos acontecimentos e da sua inevitabilidade e incompreensão. Com excepção do britânico Rufus Swell e do mexicano Gael Garcia Bernal, os restantes actores são de segunda linha, mas, de forma geral, todos eles se mostraram à altura.
Já a opção por alterar o fim é altamente discutível. Percebe-se que o público destinatário é diferente, não gosta de questões em aberto, muito menos se forem dramáticas, mas talvez tivesse valido a pena arriscar… Foi pena.

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