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Viagem pelo cinema

Pedro Bras Marques, Vila do Conde 10-10-2021

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Para quem gosta de cinema, um filme como “Rifkin’s Festival” é um deleite, tal a quantidade presente de citações e referências da História da Sétima Arte. Infelizmente, esse tesouro enciclopédico não chega, mas sempre é mais rico e recreativo do que a maioria das propostas que vão surgindo semanalmente.
Desta vez, Woody Allen viajou até Espanha, mais concretamente até San Sebastian, centrando a narrativa no festival de cinema que ali decorre desde 1953. A personagem principal é Mort Rifkin e, daí, o título do filme que, como se verá, tem duplo sentido. Este antigo professor de cinema e actual crítico viaja até à cidade basca para acompanhar a mulher, Sue, uma assessora de imprensa de actores e realizadores. Uma vez ali, ela, mais nova e fogosa do que Mort, engraça-se com Philippe, um jovem e sexy realizador. Entretanto, Mort tem uma crise de pânico e recorre a uma cardiologista, a Dra. Jo Rojas, nascendo algo para lá da evidente cumplicidade entre os dois…
Mort Rifkin é um homem cujo vigor já passou por ele, se é que algum dia lá morou. Baixo, anafado e careca, com tendência para ser chato e aborrecido, parece condenado a uma existência ou solitária ou a reboque de Sue, a sua enérgica mulher. Mas algo nasce dentro de si quando conhece Jo. E como é Mort projecta e sonha a sua vida? Recorrendo a filmes clássicos, reinventando sequências onde, agora, ele é personagem. Por exemplo, é ele quem joga xadrez com a Morte, numa citação directa de “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman. E Allen coloca-o em filmes de Orson Welles, Fellini, Godard, Truffaut, Kurosawa e, claro, estando em Espanha, de Luis Buñuel com o seu extraordinário “O Anjo Exterminador”. É este o “verdadeiro” Festival de Rifkin, o cinema como extensão da própria vida. Ou seja, inteligentemente, o realizador coloca o cinema clássico, personificado em Rifkin, em confronto com o novo, materializado em Philippe, que ele abomina. Em registo americano, “film” vs. “movie”. Os temas habituais de Allen marcam igualmente presença, como a insegurança masculina, os dramas da vida matrimonial e o judaísmo, entre outros.
“Rifkin’s Festival” é, evidentemente, um filme menor na carreira, quase sempre brilhante, do realizador de “Manhattan” e de “Match Point”. É uma homenagem ao cinema que ama, os tais “clássicos” que o enchem e que também preenchem Rifkin. O problema é que, para lá deste recurso narrativo (e das paisagens bascas…), pouco sobra. Uma história simples e linear, contada sem sobressaltos, numa atitude típica de quem está confortável e conformado com o seu percurso criativo. Assim seja.

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