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Cry Macho

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 14-11-2021

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Os últimos filmes de Eastwood, onde ele também é actor, serão filmes crepusculares. Histórias de homem velhos, homens que foram ultrapassados pelo tempo, mas que a partir desse desequilíbrio conseguem confrontar a vida serenamente; resmungando muito, é certo, mas com poucos sobressaltos. “Quando somos novos julgamos que sabemos tudo, quando envelhecemos descobrimos que não sabemos nada, e quando percebemos isso é tarde demais”, é o que diz (cito de memória) Mike Milo a Rafo no filme; o envelhecimento aceite sem dramas.
No principio do filme Milo é despedido. Foi um nome importante nos rodeos, e é habilíssimo a adestrar cavalos selvagens, mas a morte da mulher e do filho num acidente automóvel mandou-o para a “valeta” e para a bebida. Um ano depois o homem que o tinha despedido procura-o e pede-lhe que vá até ao México procurar o filho que vive com a mãe que o maltrata. Há um jogo entre “o gato e o rato” , entre Milo e a mãe do rapaz, mas este lá encontra Rafo e convence-o a ir com ele para a América. No jogo, Milo é o rato, e os dois vão ter de fugir aos capangas da mãe de Rafo e à polícia pelas paisagens desertas do México. Esta viagem será a menos interessante do filme – o saber de Milo e a ingenuidade de Rafo, diálogos forçados sobre a vida (por exemplo, Macho é o nome de um galo de combate que Rafo usava para ganhar uns trocos na Cidade do México, e o nome serve para uma “lição” sobre ao machismo e a valentia masculina); o que é muito bonito no filme é o “meio”, quando os dois para fugirem da perseguição se escondem num pueblo no “meio de sitio nenhum”: um filme que é todo ele contado delicadamente, neste intervalo da viagem torna-se quase ternurento. Os dois são ajudados por uma viúva que tem uma cantina e cria quatro netas, e entre os sete vai crescendo uma relação que podemos chamar de familiar. Entre Milo e Marta nasce uma atracção, e eles sentem que começam a pertencer a este lugar. O filme é também uma declaração de amor à cultura mexicana e à sensualidade das mulheres mexicanas.
Este filme é um desejo de liberdade (os cavalos selvagens, a imensidão das paisagens quase desertas), tudo nele apela à serenidade, à calma, cenas breves filmadas de forma pragmática por quem sabe muito sobre Cinema, a representação é amena, a fotografia discreta.
No fim, mesmo sabendo que o pedido do pai de Rafa é interesseiro, Milo deixa-o decidir. Ele volta para os braços de Marta. Dançam um bolero, “Sabor a mi”; e é muito bonita a forma como neste momento, na verdade ao longo de todo o filme, Eastwood filma a sua decrepitude, Marta é muito mais nova do que Milo. O crepúsculo também é muito bonito.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

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