Menu
Comentários

3 estrelas

José Miguel Costa, Lisboa 10-10-2021

Denunciar este comentário

"Titane", o filme da francesa Julia Ducournau que ganhou o Festival de Cannes, é um ovni cinematográfico , condenado a ser amado (por nichos de público especificos) ou odiado, poucos (entre os quais me incluo) se ficarão pelo "nim".
Esta espécie de primo (em segundo grau) do "Crash" do mestre David Cronenberg, com ambiência pseudo Lynchiana e uns resquicios de ginga Tarantiniana, não me eriçou os pelos dos braços, nem se me entranhou por todos os poros (apesar de possuir alguns ingredientes para o efeito), por não ter conseguido "casar" de modo coerente (e sem soar demasiado bizarro, ou até patético) os vários registos cinéfilos que tentou abraçar (drama psicológico, terror body horror e fábula distópica - que, por certo, teria um intuito, não alcançado, de cariz metafórico, nomeadamente no que concerne à temática da identidade de género).

A história tem por base a solitária Alexia, uma andrógena dançarina erótica com placa de titanio na cabeça (decorrente de um acidente automobilístico na infância), que nas horas livres se entretem a assassinar pessoas e a praticar sexo com carros (ficando grávida de um deles - too much para um filme com pretensões de "ser levado a sério"). A partir de determinado momento, por forma a fugir à perseguição policial, faz-se passar pelo filho desaparecido de um velho comandante de uma corporação de bombeiros (que se recusa a envelhecer), daí resultando uma dinâmica relacional altamente disfuncional.
O que me incomoda neste guião cru e não convencional (que possui a virtude de ser completamente imprevisível) não é o seu carácter provocador ou as situações grotescas e de violência extrema que o mesmo contém (características que, por norma, até me excitam, se devidamente integradas), mas sim a sua inconsistência e a contínua sensação de que a "bota não bate com a perdigota".
Apesar disso, não consigo renegá-lo, devido à vertente sensorial (já que é visualmente deslumbrante - as suas imagens estilizadas de rudeza inquietante são um regalo para a nossa iris - e possui uma banda sonora épica), bem como pela monstruosa performance dos dois protagonistas (Vincent London e a desconhecida Agathe Rousselle).

Escrever comentário:

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA