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Magnífico espectáculo

Nazaré, LISBOA 09-02-2022

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Mais um filme de época baseado num romance famoso? Nada disso: muito melhor que "mais um", e apesar do dito romance (homónimo) ser o que alguns conhecedores consideram o melhor de todos os que Balzac escreveu — o que é um verdadeiro top of the pops para a literatura — este foi um romance maldito, por pôr tão a nu a sociedade parisiense. Os bem-pensantes espirraram com o calafrio e a consagração foi para outras obras. Mas o texto, narrado pelo canadiano e grande cineasta Xavier Dolan (enquanto Nathan), é duma beleza suprema e duma profundidade provocante, sem perder minimamente 'l'esprit' bem francês. E a base principal e verdadeiro motor deste filme é apenas a segunda parte do tríptico do romance original (de resto, a mais incómoda), sendo por isso uma adaptação livre onde, parece-me, se vão buscar algumas partes doutros da Comédie Humaine. E onde se omite a 'personagem' do Cenáculo, importante no original. Mas, diga-se, que adaptação tão inteligente, que liberdade dentro da fidelidade, que transporte no tempo! Quem não viu que se arrependa.

O protagonista Lucien é um meteoro que passou pelas vidas das personagens recorrentes da Comédie Humaine. Deve ter muito de autobiográfico do ex-jornalista Honoré de Balzac, com a sua mistura de talento com oportunismo, ambição, arrogância jovem, idealismo flexível e romantismo. Que nos mostra como para ser parisiense é preciso nascer parisiense, e perder com isso toda a capacidade de observar esta comédia da capital francesa dos anos 1820 (e de todos os tempos, diria), mas sobreviver-lhe muito mais facilmente. Benjamin Voisin é uma escolha impecável, e tudo o resto mostra a que ponto estão a ser epidérmicas estas reconstituições do passado. Magnífico, pois.

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