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Em ponto morto...

Pedro Marques, Vila do Conde 07-02-2020

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A denúncia de casos de abuso sexual em ambiente de trabalho explodiu com o caso Harvey Weinstein, fazendo com que muitas mulheres ganhassem coragem para virem a público denunciar esses crimes e acusar os prevaricadores. Como é previsível, a mistura de poder e sexo resulta em histórias com um potencial que o cinema e a televisão não podem descurar, até porque “a realidade ultrapassa quase sempre a ficção”.
É precisamente este o cenário de “Bombshell – O Escândalo”, onde é denunciada a prática continuada de abuso sexual por parte de Roger Ailes, o sombrio todo-poderoso administrador da Fox News, às jornalistas e apresentadoras da estação, prejudicando-as profissionalmente se não cedessem aos ataques do seu instinto predador. Do lado das vítimas, o filme acompanha três mulheres loiras e luzidias: Megyn Kelly, interpretada por Charlize Theron, Gretchen Carlson por Nicole Kidman e Kayla Pospisil, a quem Margot Robbie dá vida. Todas foram alvos de ataques de Roger Ailes, mas estão em diferentes estados de vida: a primeira já é uma vedeta e libertou-se do jugo, a segunda está a ser directamente prejudicada naquele preciso momento narrativo e, a terceira, é a mais recente presa do caçador-produtor. E é Gretchen quem dá o tiro de partida, ao processar pessoalmente Ailes, numa estratégia bem pensada e que acaba por dinamitar tudo dentro da redacção da estação televisiva.

A história é interessante, mas o filme não se ergue para lá da narrativa dos factos. Não consegue, desde logo, transmitir nem a sensação de opressão que tal situação criaria no espaço de trabalho, nem a de libertação após o deflagrar do escândalo. Nenhuma das três actrizes teve arte para fazer passar a virtude dos seus actos, de vingança ou de justiça, conforme o enfoque que se lhe queira dar. Pior, ainda, uma realização cinzenta, o que não admira vindo de quem, como Jay Roach, tem no curriculum uma série de comédias banais e de gosto altamente discutível. Sem rasgo, sempre preso a grandes planos, tratou a história como se fosse uma série de televisão. Alias, bem se podia ter inspirado na excelente “The Morning Show”, que aborda um ambiente análogo e a mesmíssima temática, mas com uma energia e uma profundidade que Roach nem lá perto consegue chegar. Mesmo o trio de actrizes que protagoniza “Bombshell” deixa muito a desejar, com Kidman e Theron em registo cabotino, apenas escapando a “inocente” composição de Margot Kidder, justificando a nomeação para Óscar de Melhor Actriz Secundária.

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