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Rifkin`s Festival

Fernando Oliveira, Coruche, Portugal 26-09-2021

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É claro que é apenas mais um filme de Woody Allen. Mas um filme de um realizador que sabe tudo sobre a arte de contar histórias em filmes, histórias capazes de nos fazer rir ou chorar, de nos enternecer ou angustiar, sobre coisas ridículas ou coisas muito sérias. Um realizador cuja obra filmica lhe deu o direito de presumir que os seus espectadores conhecem a história do Cinema o suficiente para identificarem todos as cenas “roubadas” a clássicos desta arte que Allen recria muito livremente neste “Rifkin`s Festival”.
Mort Rifkin (uma interpretação espantosa de Wallace Shawn) foi professor de Cinema e agora é um escritor encalhado porque não admite escrever nada que não se compare às obras-primas da Literatura (e ele fala em Shakespeare, em Joyce, em Dostoiévski…); acompanha a mulher, Sue (Gina Gershon), assessora de imprensa (?) que acompanha um jovem realizador francês, Phillipe (Louis Garrel), que tem um filme a concurso no Festival de San Sebastian, no País Basco. Mort desconfia que a mulher e o realizador têm um caso, o que é verdade, mas se o provoca por causa do seu pedantismo, vai ao mesmo tempo afastando-se do festival e deambula pela cidade. Uma “dor” no coração fá-lo ir a consulta com a Drª Jo Rojas (Elena Anaya) e fica cativado por ela…
Ah! E a psicanálise? É um filme de Woody Allen, o filme começa e acaba no consultório de um psicanalista.
Muito bonito neste filme é a forma como Allen desenha um retrato cruel do pretensiosismo que grassa em quase todos os envolvidos no Festival, e ao mesmo tempo brinca o tempo todo com o “outro” festival que vai decorrendo na mente de Mort: porque ele sonha e delira com o que lhe vai acontecendo, com os seus medos e os seus desejos, recriando na sua mente cenas icónicas de alguns dos clássicos maiores do Cinema. Welles (“Citizen Kane”), Fellini (“8 ½”), Truffaut ("Jules e Jim”), Lelouch (“Um homem e uma mulher” – este é discutível), Godard (“O Acossado”), Bergman (“Morangos silvestres”, “Persona” e “O sétimo selo” – e o jogo de xadrez entre Mort e a Morte é um delirio magnifico) e Buñuel (“O anjo exterminador”) não são poupados pela veia cómica de Allen e descontruidos até à paródia para sublinharem os estados de espírito de Mort.
Se é verdade que os passeios na cidade derivam por vezes para o postal turístico (sabendo da dificuldade que nos últimos anos o realizador tem para arranjar financiamento para os seus filmes, provavelmente será uma obrigação contratual), mas o brilhantismo do argumento, a competência sem mácula de Allen, a fotografia sempre magnifica de Vittorio Storaro, o trabalho dos actores, tudo isto faz de “Rifkin`s Festival” um filme que não se alcandorando com um dos filmes mais importantes do realizador (longe disso), é interessante o suficiente para ficar na memória deste ano.
Mesmo muito bonito.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

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