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Crítica

Homens ao mar

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Portugal continua a viver no equívoco permanente que é chamar “cinema” ao que não passa de “reembalagens” de séries televisivas em “compactos” com honras de estreia em sala (e que, na grande maioria dos casos, nem sequer atraem muito público). É, outra vez, isso que temos em Terra Nova, cuja versão TV já foi exibida na RTP e que chega agora ao cinema num filme que deveria ter estreado em sala antes da série, no exacto momento em que a pandemia encerrou os cinemas. 

Havia, ainda assim, uma ideia curiosa na base: a partir da peça de Bernardo Santareno O Lugre, criar um filme que decorresse inteiramente no alto mar, durante uma campanha malfadada de pesca do bacalhau, com a série a “incorporar” o filme mas a completá-lo com material novo em terra, inspirado pelos escritos do dramaturgo.

O material estava lá: uma história forte que funciona como retrato elíptico da claustrofobia portuguesa durante o regime de Salazar, e um elenco francamente sólido. Mas, talvez por ter trabalhado maioritariamente no pequeno ecrã, Artur Ribeiro (que filmou a campanha marítima enquanto Joaquim Leitão rodava as cenas de terra) não é capaz de escapar ao utilitarismo televisivo nem de gerir sequer a tensão da narrativa que tem em mãos (o tempo interno da narração ou mesmo a época em que tudo se passa são elididos ao ponto do desaparecimento). 

Tudo é nivelado pelo “mínimo denominador comum” de contar uma história com princípio meio e fim sem perder tempo com pormenores, quando são precisamente os pormenores que contribuem para tornar uma história verosímil. E se há que fazer honra a Pedro Lacerda, Virgílio Castelo, João Reis, Vítor Norte ou Miguel Borges pela intensidade e dignidade que emprestam às personagens, há também que lamentar que o seu esforço acabe diluído numa pequenez nos antípodas da ambição pretendida. Que diabo, não se pedia um Master and Commander, mas também não era preciso estar a sempre a mostrar que se é marinheiro de água doce. 

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