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Crítica

Sonhos autobiográficos de Abel Ferrara

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Desde que se radicou em Roma (Welcome to New York, o seu óptimo filme de 2014 sobre as desventuras de Dominique Strauss-Kahn foi, afinal, um goodbye New York), Abel Ferrara converteu-se em cineasta europeu, com um conjunto de filmes (Pasolini, Tommaso) que não apenas respondem a um universo cultural diverso do que foi o dele durante décadas como marcam também uma ruptura com os traços essenciais do que fez antes. Siberia, feito outra vez com a participação do seu principal parceiro neste novo período (Willem Dafoe, outro exilado voluntário em Roma), leva isso a um extremo inédito — se Tommaso ainda se podia aproximar de uma tradição americana de fazer cinema cara a Ferrara (é o mais “cassaveteano” dos seus filmes), Siberia está mais próximo dos onirismos fellinianos e da psicanálise pessoal à la Oito e Meio, ou de uma certa influência (visual, sobretudo) de cineastas do leste europeu, do que de qualquer coisa com escola americana, e embora haja quem tenha falado em Lynch a propósito do filme isso virá mais da associação de ideias de quem vê do que de uma real influência de Lynch sobre Ferrara. A chave parece-nos felliniana, de facto: com um duplo no ecrã — Dafoe é aqui o seu Mastroianni — o cineasta ex-novaiorquino passa em revista, numa espécie de teatro pessoal em nenhures (a Sibéria do título não tem que corresponder a uma Sibéria autêntica mas apenas a uma “ideia”, um ermo, um destino de deportados e exilados involuntários), uma série de aspectos relacionados com a sua autobiografia (com a mais que provável colaboração, em certas cenas, da autobiografia de Willem Dafoe, porque a “co-criação” parece aqui ainda mais nítida do que em Tommaso).

O Ferrara de Roma é um homem mudado, mais pacificado, longe dos excessos que pontuaram as décadas da sua existência nova-iorquina. Tudo isso parecem ser fantasmas, agora, convocados por Siberia para um derradeiro (?) ajuste de contas. O jogo (ou o vício), figurados como o sonho de um urso feroz lançado por uma cena com um jogo de flippers, o amor, a paternidade (a mulher e a filha de Ferrara aparecem no elenco), a relação com o pai (que será mais Dafoe, que aliás nessas cenas faz de filho e faz de pai, com ressonâncias que não parecem nada próprias de um italo-americano novaiorquino), a música e o underground (reminiscências da Factory de Warhol que Ferrara frequentava?) em insólitas cenas de “black metal”, etc. Algures no meio disto, o monólogo mais explícito quanto a uma conversão de Ferrara da “noite” para o “dia”, uma dissertação sobre o dia como o tempo onde a verdade deve ser encontrada, e sobre a importância do sono (monólogo que, como referencia o genérico de fecho, foi tirado a Nietzsche e ao Zaratustra).

É um registo, entre o onirismo e o simbolismo (às vezes pesado, como na cena com a mulher grávida logo ao princípio), que é difícil de manter uniformemente. A estrutura episódica é irregular e desequilibrada, nem tudo funciona da mesma maneira (mas parabéns a Ferrara, por não ter medo de enfrentar o grotesco cara a cara), e diversas vezes o espectador tem que se agarrar ao que sabe da vida do cineasta para conseguir tirar algum sentido do que está a ver. De tudo o que o realizador fez até hoje, será o objecto mais “experimental”, mais situado em territórios (e “linguagens”) que até agora lhe foram estranhos. Veremos aonde vai dar esta Siberia, se é caminho para algum lado, ou se foi destino que ficou fechado.

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