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Crítica

Os órfãos de Estaline

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Andrei Konchalovsky parece longe dos tempos de maior fama internacional. Aquela passagem por Hollywood nos anos 80, se teve alguns pontos altos (Os Amantes de Maria, Comboio em Fuga), ter-lhe-á danificado a reputação, que nunca mais foi a mesma desde o final da década de 70, momento em que (sobretudo por um filme como Siberiade, grande sucesso internacional) Konchalovsky representava — com o irmão Nikita Mikhalkov e alguns outros — a primeira linha de um “novo cinema” soviético ou, liminarmente, russo. Quase tudo o que fez depois da sua aventura americana, e do regresso à Rússia pós-URSS, viveu numa certa palidez quando comparado com o poder de atracção que o seu nome tinha nesses outros tempos. Faltam-nos instrumentos para saber o que representa Konchalovsky dentro da Rússia contemporânea, e como é que os russos o vêem (sabendo-se que o irmão Nikita se tornou uma das figuras mais poderosas, e mais próximas do poder, do cinema dessa nova Rússia), mas a impressão que dá é que soube preservar uma dose de independência (a acreditar no genérico de Caros Camaradas!, é produtor de si próprio), e uma margem de liberdade para ir alinhando filmes pessoais, com uma relação crítica (ainda que ambígua, para não dizer enigmática) com o presente e o passado do seu país.

Já era assim no último filme em que o notámos, Paradise, de 2016, o primeiro Konchalovsky comercialmente estreado em Portugal em muitos anos, que compunha um retrato complexo, entre este mundo e o outro (como o Uma Questão de Vida ou de Morte de Powell e Pressburger), da comunidade parisiense de “russos brancos”, que ali se exilaram depois da Revolução e uns anos mais à frente apanharam com a invasão nazi e a Ocupação.

E é outro olhar sobre a História que Caros Camaradas! propõe, agora mais directamente ligado à vida interna da URSS. O ano é de 1962 — e para pôr em contexto, note-se que, apesar do “degelo” Kruscheviano que se seguiu à denúncia do estalinismo, é um dos períodos mais tensos da relação entre a URSS e o Ocidente, entre a construção do Muro de Berlim (iniciada no ano anterior) e a crise dos mísseis de Cuba (desenvolvida no ano seguinte). E, nesse ano de 1962, no coração da URSS sucedeu um episódio relativamente traumático que, abafado pelas autoridades, ficou pouco conhecido internacionalmente: uma greve de operários na cidade de Novocherkassk que acabou violentamente reprimida com um número inquantificado de mortos e desaparecidos (a acreditar no filme, vários cadáveres foram enterrados à socapa, dentro de supulturas já existentes). “Uma greve de trabalhadores num país socialista”, repetem as personagens com incredulidade. Mas é esse aparente contrassenso que alimenta o filme de Konchalovsky, e o “arco” da sua protagonista (Julia Vysotskaya), burocrata partidária, profundamente crente na bondade do regime (e um pouco “órfã” de Estaline), que passa dessa posição ortodoxa (reage às primeiras notícias da greve com brutalidade, para ela não há dúvida de que os grevistas estão a ser manipulados pela “propaganda americana”) a uma posição de enorme dúvida, sobretudo a partir do momento em que a questão lhe toca pessoalmente (a filha adolescente, mais arejada, mais “nouvelle vague”, é uma das desaparecidas nos tumultos). Passagem, portanto, de uma fé absoluta a uma crise de fé — e se, de novo, nos faltam instrumentos para compreender o estatuto desta crise numa História da URSS, o que o filme sugere é que ela representou o primeiro indício de um fim que demoraria ainda três décadas a chegar (mas quando a protagonista diz, com melancólica ironia, que “sem Estaline isto está tudo perdido” é mesmo essa sugestão, igualmente irónica de um ponto de vista histórico, que nos vem ao espírito).

Sem ser “melodramático” (porque é seco como uma rocha), mas recuperando alguma da mecânica do melodrama histórico (personagens apanhadas na engrenagem dos “acontecimentos”), Caros Camaradas! oscila entre este olhar retrospectivo, cheio de “pintura de ambientes” (os décores das casas das personagens, os televisores ligados, tudo dá uma impressão palpável do que era o “ambiente”, o quotidiano), e a descrição desse movimento rumo à dúvida e à descrença, que não se resolve no fim (aliás, relativamente comovente, e por certo o momento mais melodramático, sem aspas, de todo o filme) nem consubstancia, por isso, um olhar maniqueísta a dividir o mundo entre o Bem e o Mal (é aliás uma das coisas entusiasmantes do filme, essa capacidade de olhar para a História com uma certa amoralidade, sobretudo neste tempo em que as referências à História por norma mais parecem sermões de religião e moral).

Bom filme, sério, adulto sem contemplações, e com pelo menos uma cena (a do massacre, dada num longo plano fixo de interior, cheio de movimento e com um magnífico uso do som) a lembrar que Konchalovsky, para além de ser um autor que continua a valer a pena seguir, ainda é capaz de momentos de brilhantismo e de, para usar a fórmula de Hitchcock, “cinema puro”.

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