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Crítica

Eternals: buraco negro

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Dizem-nos as leis da física que o buraco negro é um evento cósmico que suga toda a energia que o rodeia sem possibilidade de escapar. Aplicando esta lógica ao “Universo Cinemático Marvel” — a sequência interligada de histórias de super-heróis oriundos da banda desenhada americana que se tornou, ao longo dos anos, no pão nosso de cada dia de Hollywood — daqui decorre que o “UCM” suga toda a energia daqueles que nele participam sem lhes dar uma hipótese de resistir. Chloé Zhao pode ter vencido o Óscar de realização por Nomadland, mas ao tomar as rédeas do mais recente candidato a blockbuster do estúdio americano, limita-se a seguir nas pegadas de outros cineastas igualmente estimáveis (como Cate Shortland, Anna Boden e Ryan Fleck, Destin Daniel Cretton ou Ryan Coogler), que deram o salto do circuito indie americano (já de si, é certo, um tanto ou quanto nivelador por baixo nos últimos tempos) e aceitaram submeter-se à todo-poderosa ditadura dos super-heróis.

Terá de se dizer que Zhao sempre marca um ou outro ponto. Sente-se nos seus Eternals, actualizando uma série secundária criada pelo mestre desenhador Jack Kirby sem a mão de Stan Lee, uma tentativa de prestar mais atenção à estrutura psicológica das personagens; e reconhece-se uma maneira “paisagista” de as filmar no espaço. Mas, pela mesma bitola, confunde-se seriedade com sisudez, gravidade com pompa, como se Christopher Nolan ou Denis Villeneuve tivessem tomado conta das festividades — sendo que a sino-americana não tem a precisão maníaca do primeiro nem o formalismo deslumbrante do segundo.

A ideia dos super-heróis que aspiram a uma qualquer normalidade e dos imortais que querem ser mortais está longe de ser nova, e as constantes referências às outras personagens e às outras aventuras do “UCM” marcam limites que a realizadora não pode transgredir; a própria diversidade representativa de cenários (Índia, Amazónia, Iraque), etnias e personagens deixa no ar o que é opção artística e o que é exigência corporativa para chegar ao maior denominador comum. Eternals é, em suma, menos “um filme de” Chloé Zhao, e apenas a mais recente peça de um enorme mosaico narrativo anónimo que cria uma história alternativa da civilização humana, como um comic-book em imagem real (ou tão real quanto os efeitos digitais o permitem), que seca tudo à sua volta. Ou seja, um buraco negro.

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