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Crítica

O mundo caótico dos sentimentos

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Com este filme se introduz Emmanuel Mouret (francês, 1970) ao circuito comercial português, um realizador que anda há duas décadas a construir uma obra cheia de filiações em tradições muitíssimo francesas (quer literárias, quer cinematográficas) e que até agora ninguém se tinha atrevido a estrear em Portugal (já agora, quem for ver As Coisas que Dizemos... e ficar com curiosidade para mais, pode dirigir-se à Netflix, que às vezes pode ser estranhamente útil, e consultar o filme anterior de Mouret, Mademoiselle de Joncquières, baseado na mesma história de Diderot que Bresson adaptou em Les Dames du Bois de Boulogne).

Filiações francesas, dissemos, e de facto perante estas Coisas dedicadas a uma radiografia sentimental das personagens e das suas vidas amorosas reconhecemos traços que vêm de tão longe quanto Renoir (menos o Renoir das marivaudages e mais o Renoir “mozartianamente” grave como o da Partie de Campagne) e de tão perto quanto Rohmer. É um filme sobre sentimentos, mas sobre sentimentos tal como as personagens os conseguem descrever, o que significa que é um filme de palavras e de relatos. O racconto é o seu mote explícito, a partir do encontro entre duas personagens (as de Niels Schneider e Camélia Jordana) que enquanto esperam pela chegada de uma terceira (a de Vincent Macaigne, o namorado da de Jordana) se põem a contar uma à outra uma história abreviada das suas vidas sentimentais (e este “dispositivo”, o de personagens que se entretêm umas à outras com narrativas, é tão clássico que até na literatura da Idade Média se praticava). Essas histórias complicam-se, entroncam-se, há pares que se combinam e recombinam, acasos e premeditações que se confundem, segredos ou buracos duma história que são revelados ou colmatados por outra história, verdades que ninguém conhece totalmente, passados que nem sequer são “passado” (como diria Faulkner) — o mundo dos sentimentos é caótico, incontrolável, subjugador, e este é o pressuposto de As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos (só esta distinção entre “dizer” e “fazer” é um resumo fiel), tanto quanto o filme é a sua demonstração prática.

Claro que isto podia ser a estrutura de qualquer comédia romântica ou melodramática como se fazem às dúzias. Podia, se elas fossem tão bem feitas e tão inteligentes como o filme de Mouret. Um dos seus segredos é o domínio magistral do tom, a forma como vai imbuindo tudo de um sentido de gravidade lancinante, dando peso a cada gesto, a cada frase, a cada revelação, sem nunca olhar as personagens de cima (e, nesse aspecto, bem mais renoiriano do que rohmeriano). O uso de uma envolvência musical, baseada em temas clássicos, contribui subtilmente para isso — um emprego da música que lembra certos momentos de Hong Sang-Soo, realizador com que, aliás, outros pormenores “estruturais” de Mouret (as rimas, as repetições, as simetrias narrativas, as mudanças de perspectiva) também parecem estabelecer um diálogo. E não só, já que falamos de realizadores asiáticos: não há melhor forma de descrever a mais lancinante das histórias, e a mais “oculta” das personagens (a ex-mulher da personagem de Macaigne, interpretada por Emilie Dequenne, que há muitos anos foi a Rosetta dos Dardenne), do que dizer que se concentram aí os raros momentos do cinema contemporâneo a que apetece chamar mizoguchianos (aquele plano com ela a chorar, dobrada sobre si própria, no menos óbvio e menos espectacular dos enquadramentos) sem que sintamos a necessidade de usar aspas.

Discretamente, um dos pontos altos do ano, no que toca a estreias comerciais. Uma revelação, a não perder.

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