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E o sol não brilhou para todos nós...

Pedro Brás Marques, Vila Nova de Gaia, Portugal 21-05-2021

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O argumento de “Caros Camaradas”, o filme assinado por Andrey Konchalovsky e que foi o candidato da Rússia à categoria de Melhor Filme Internacional, nos Óscares deste ano, mas não chegou à ‘short list’ final, centra-se num episódio concreto: o massacre de Novocherkassk. Nesta cidade, situada na bacia do Don, em 1962, o exército e a KGB dispararam contra operários duma fábrica de locomotivas, mergulhados em greves e protestos contra as péssimas condições de trabalho e a crescente escassez de alimentos. 26 mortos e dezenas de feridos foi o resultado da acção ordenada por Moscovo que ainda obrigou a cidade a estar sitiada por um cerco militar, os habitantes a assinarem declarações em como “não sabemos de nada” e, como prémio, montou-lhes um bailarico. Parece um episódio ‘nonsense’, mas foi mesmo o que aconteceu…

A história é contada do ponto de vista de quem está no poder, em concreto de Lyudmila, que fazia parte do governo local e uma fervorosa apoiante do partido, em cujas virtudes acredita. É, portanto, uma das privilegiadas, tem acesso prioritário a bens supérfluos, veste-se de forma moderna quando comparada com as demais e anda enrolada com um homem casado, um “camarada” do partido. Vive com o pai que suspira por Estaline e acha que “Kennedy devia era bombardear-nos” e uma filha, algo rebelde, que está contra o poder local e, logo, contra a mãe. Lyudmila está no meio de dois mundos, de duas concepções de vida e procura esquivar-se por entre um mundo de contradições.

Konchalovsky filmou “Caros Camaradas” a preto e branco, o que aliado à reconstrução cénica e ao guarda-roupa, tem o efeito de dar a impressão de que estamos a ver imagens da época. O momento mais forte do filme é, claro, o do massacre. O realizador mostra vários pontos de vista, desde o do sniper que vai acender o rastilho, ao da população em fuga, sem esquecer o desespero de Lyudmila à procura da filha que ela sabia estar entre os manifestantes. Konchalovsky não montou um momento de acção, antes parou a câmara e deixou ver o que ia acontecendo… O momento em que se refugiam numa loja é dum impacto e dum dramatismo raros, mas, depois, o filme perde espessura, centrando-se exclusivamente na odisseia de Lyudmila em busca da filha.

O realizador que nos anos 80 do século passado andou por Hollywood a filmar umas parvoíces mas que, pelo menos, nos mostrou a sensualidade de Nastassja Kinski no longínquo “Os Amantes de Maria”, não esconde nada relativamente aos acontecimentos passados em Novocherkassk, desde a manipulação das autoridades, passando pela hipocrisia generalizada e pela miséria do povo enganado e oprimido, sem esquecer o toque de perversidade que é a organização do tal baile quando a cidade acaba de perder muitos dos seus filhos, tal qual as autoridades lavam o sangue derramado na praça… Mas há memórias que convém não esquecer, para que não voltem a ocorrer.

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