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Publicada a: 10-02-2012
Miguel Gomes é candidato ao Urso de Ouro

Miguel Gomes é candidato ao Urso de Ouro

Se outra razão não houvesse para prestar atenção à 62.ª edição do Festival de Cinema de Berlim, iniciada ontem com a habitual gala de inauguração (a cargo de Les Adieux à la Reine do francês Benoît Jacquot) e que hoje arranca "a sério", haveria esta: um filme português está na competição oficial de longas-metragens, pela primeira vez, desde 1999. E não é um filme qualquer: é Tabu, a nova e sumptuosa longa-metragem de Miguel Gomes, o autor de Aquele Querido Mês de Agosto, uma história a preto e branco que evoca e invoca ao mesmo tempo a presença portuguesa em África e o cinema clássico, navegando entre a Lisboa dos nossos dias e os anos de 1960 no sopé do Monte Tabu. A primeira de cinco exibições é na terça-feira, às 19h30 no palácio do festival.

Não é a única produção portuguesa nas competições nobres do certame alemão: João Salaviza, depois da Palma de Ouro das Curtas em Cannes com Arena, mostra a sua nova curta, Rafa (menos abstracta, mais distendida que Arena) na selecção competitiva de curtas-metragens do festival, com quatro passagens (a primeira das quais na tarde de sábado). (Should the Wife Confess?, curta de Bernardo Camisão que esteve em Vila do Conde 2011, é mostrada na secção paralela Culinary Cinema). 

Mas as atenções viram-se forçosamente para Tabu, por ser o sucessor do fenómenoAquele Querido Mês de Agosto, filme que viajou por todo o mundo com uma recepção entusiástica, e por ser a primeira vez que a competição de Berlim recebe uma longa portuguesa desde Glória, de Manuela Viegas, em 1999. O filme de Miguel Gomes está assim em liça para o prémio máximo do festival, o Urso de Ouro (atribuído o ano passado ao iraniano Asghar Farhadi por Uma Separação). 

Outros candidatos são, por exemplo, o novo filme do filipino Brillante Mendoza: Captive, que marca o encontro do cineasta de Lola e Kinatay, que até aqui trabalhara apenas com a "prata da casa" do seu país, com uma actriz de primeira grandeza, Isabelle Huppert. Ou Bel Ami, adaptação de Maupassant pelos encenadores ingleses Declan Donnellan e Nick Ormerod com Robert Pattinson, Uma Thurman, Kristin Scott Thomas e Christina Ricci. Ou os novos filmes de dois dos mais importantes cineastas alemães contemporâneos, Christian Petzold (Barbara) e Hans-Christian Schmid (Was bleibt). Ou os veteranos irmãos Taviani (de regresso com Cesare Deve Morire) e Zhang Yimou (The Flowers of War, superprodução chinesa com o actor inglês Christian Bale no papel principal). E Shadow Dancer, ficção sobre a Irlanda do Norte do documentarista James Marsh, vencedor do Óscar por Homem no Arame, só não é porque está fora de concurso. O júri presidido pelo realizador britânico Mike Leigh (Segredos e Mentiras,NuUm Ano Mais), e do qual fazem igualmente parte Asghar Farhadi, o fotógrafo e realizador Anton Corbijn, a actriz Charlotte Gainsbourg ou o actor Jake Gyllenhaal, parece ter tido sorte com a selecção 2012. 

Passadeira vermelha

Berlim, claro, nunca é só a competição. Há também a "passadeira vermelha" hollywoodiana, com Angelina Jolie a vir mostrar, fora de concurso, a sua primeira realização, In the Land of Milk and Honey; Meryl Streep a ser homenageada pela sua carreira aproveitando a estreia de A Dama de Ferro; Steven Soderbergh a mostrar o seu exercício de estilo no cinema de acção Haywire, interpretado pela atleta Gina Carano, ao lado de um elenco de convidados que inclui Michael Douglas, Ewan MacGregor ou Antonio Banderas; Tom Hanks e Sandra Bullock a virem mostrar a adaptação do romance de Jonathan Safran Foer Extremamente PertoIncrivelmente Alto por Stephen Daldry (O LeitorBilly Elliot). 

Há também o interesse pela história, com uma retrospectiva dedicada ao cinema produzido entre 1923 e 1936 pela produtora russo-alemã Mezhrabpom/Prometheus, A Fábrica de Sonhos Vermelha, ou uma mini-retrospectiva da cineasta independente americana Shirley Clarke na secção Forum. E a atenção ao mundo que nos rodeia que sempre marcou a selecção do festival: este ano, ao nível documental, há a estreia do documentário de Kevin MacDonald sobre Bob Marley, a primeira exibição da série televisiva de Werner Herzog sobre os condenados à morte americanos, Death Row: Portraits, e olhares sobre os artistas Marina Abramovic (The Artist Is Present, de Matthew Akers e Jeff Dupre) e Ai Weiwei (Never Sorry, de Alison Klayman). 

Inevitavelmente, contudo, os nossos olhares vão sempre estar em Gomes e Salaviza. Porque há 13 anos que não havia uma longa portuguesa a concurso em Berlim - e porque Tabu vem quebrar esse tabu; e porque depois de uma Palma de Ouro as expectativas aumentam. Não é impossível que o Urso fale português este ano. A ver vamos.
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